
Elenice Pereira vai cursar pedagogia na Universidade Federal do Norte Fluminense (Uenf). Elenice Pereira é aprovada na universidade aos 70 anos
Vitor Carletti / Ascom IFF Campos Centro
A rotina de Elenice Pereira, de 70 anos, vai mudar completamente em 2025. Depois de 38 anos dedicados aos serviços gerais de uma escola estadual de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, ela agora vai ocupar outro posto dentro de uma sala de aula: o de aluna. Aposentada, Elenice fez a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e foi aprovada no curso de pedagogia da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).
“Que Deus me dê saúde para aguentar, porque faculdade é muito cansativo. Mas eu sou uma mulher corajosa”, diz ela, com a mesma determinação que a acompanhou por toda a vida.
Infância no campo e os primeiros desafios
Nascida em São Francisco de Itabapoana, Elenice cresceu na zona rural de Natividade, onde começou a trabalhar na roça desde cedo. A educação sempre foi um sonho, mas a realidade impôs barreiras: estudou apenas até a terceira série. Aos 16 anos, decidiu que queria outro futuro. Com o apoio da patroa, se mudou para Campos e começou a trilhar um novo caminho.
Na cidade, trabalhou como babá enquanto frequentava a escola e fazia o curso de formação de professores. Mas o destino trouxe mais desafios. A maternidade chegou cedo, e os estudos foram interrompidos novamente.
A perda da filha e o orgulho pelo filho
A vida de Elenice foi marcada por sacrifícios. Sua filha mais nova, Franciane, teve problemas de saúde desde a infância, o que fez com que a mãe dedicasse todo o tempo ao trabalho e aos cuidados médicos. Em 2011, a dor da perda foi imensurável: aos 27 anos, Franciane faleceu, deixando Elenice em uma depressão profunda.
Elenice e o filho Marcelo
Arquivo pessoal
Ainda assim, entre tantas dificuldades, um dos maiores motivos de orgulho de Elenice sempre foi seu outro filho, Marcelo. Ele se formou em engenharia de produção, um feito que, para ela, parecia impossível quando lembra de sua infância humilde.
“Eu jamais imaginei que aquela menina pobre que morou no interior, que capinou milho e arroz com o pai e a mãe, os irmãos… Que sofreu tanto, que passou necessidade, fosse conseguir formar um filho.”
Um novo começo aos 70 anos
Agora aposentada, Elenice decidiu tentar mais uma vez. Fez o Enem, garantiu uma vaga na Uenf e, desta vez, sente que é o momento certo. Mais da metade de sua vida foi dedicada a zelar pelo lugar que educou diversas crianças. Em 2025, ela vai atrás do próprio sonho de estudar em uma universidade.
Elenice acompanhada de suas professoras do IFF Campos Centro
Arquivo pessoal
Gratidão é uma palavra constante no vocabulário de Elenice. Ela lembra com carinho da primeira professora que teve em Campos, uma mulher que a tratava com respeito em uma época em que o racismo era ainda mais escancarado. Hoje, no campus do Instituto Federal Fluminense (IFF), recebe aplausos e incentivo dos colegas e professores.
Mas, acima de tudo, agradece a Deus. “Sempre fui uma mulher de fé. Com respeito, perseverança, trabalho duro e sacrifícios, a gente consegue realizar os sonhos. E esse é só mais um que estou conquistando.”