Família denuncia demora para atendimento em UPA de Campinas antes de idoso ter parada cardíaca


Paciente morreu no domingo (23), enquanto buscava atendimento na UPA Carlos Lourenço. Prefeitura afirma que unidade tem estrutura para fazer acolhimento. Morte é investigada pela Polícia Civil. Família relata demora no atendimento em UPA de Campinas antes de idoso ter parada cardíaca
As irmãs Adriana Santos Betti e Cristiane Santos Luz perderam o pai, de 68 anos, neste domingo (23). Ele teve uma parada cardiorrespiratória em frente à UPA Carlos Lourenço, em Campinas (SP), enquanto as filhas buscavam atendimento. Elas reclamam de falta de treinamento e demora por parte da equipe da UPA.
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Segundo a Polícia Civil, os caso será investigado pela 10º DP do município. A prefeitura informou que está fazendo uma apuração interna para que sejam dados os devidos encaminhamentos.
Este caso não foi judicializado, mas um levantamento do Conselho Nacional de justiça (CNJ) aponta alta de 44,7% no número de processos de indenização por danos morais e materiais abertos contra as redes pública e privada de saúde nas regiões de Campinas (SP) e Piracicaba (SP).
Para advogada da Comissão de Direito Médico da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Campinas, aumento reflete maior acesso à informação na busca por direitos de pacientes.
Ercílio Silva Santos, de 68 anos, teve uma parada cardiorrespiratória e morreu enquanto família buscava atendimento na UPA Carlos Lourenço, em Campinas.
Reprodução EPTV
Dificuldade para conseguir atendimento
Adriana e Cristiane contam que o pai, Ercílio Silva Santos, começou a passar mal no domingo (23), com falta de ar. Como o quadro não melhorava, as irmãs o levaram de carro de uma rua no Jardim São Fernando para a UPA Carlos Lourenço, um trajeto de 1,7 km que dura cinco minutos.
Família levou Ercílio de carro até a UPA Carlos Lourenço, trajeto que tem 1,7 km e dura cinco minutos.
Reprodução EPTV
Quando chegaram em uma das entradas da UPA, um guarda teria informado que a entrada para atendimentos de emergência era outra, e que a família deveria retornar pela contramão da via para chegarem à posta correta e serem atendidos.
“Nós paramos na única entrada que nós tínhamos conhecimento, que é a entrada do pronto atendimento, e eu desci correndo do carro para pegar a cadeira de rodas para poder tirar meu pai do carro. O meu marido, que estava ‘num’ outro carro, chegou também e pediu para que um paciente que estava ali ajudasse ele a tirar meu pai de dentro do carro, e o paciente se prontificou a ajudar. Nisso veio o guarda e falou que a entrada de emergência era em outro local e não nos deixou descer o meu pai ali”, relata Adriana.
Adriana conta que não conseguiu dar ré para entrar na contramão, como orientado, porque outro carro passava pela via no momento. Ela acredita que o pai teve a parada cardiorrespiratória nesse momento.
“Ele [o pai] soltou de repente. Então, ali a gente acredita que foi uma parada que ele teve. Então, eu voltei com o carro, pus para frente de novo e falei ‘ele parou’. Aí, nisso, eu desci. Ela [a irmã] desceu, a gente falou ‘ele parou’. Agora ele parou, não tem o que fazer, não dá. Aí, o guarda, ‘não, tem que entrar pela outra portaria mesmo’. Eu ainda questionei […] mas não tem uma passagem direta? Achei um absurdo não ter, né? ‘Não, não tem’. E nós descobrimos depois que tinha, porque foi por lá que eu voltei para fazer a ficha do meu pai”, afirma Cristiane.
Cristiane correu até a entrada para emergências e disse a outro guarda que precisava que alguém estivesse no local para receber o pai. Ela relata que uma enfermeira que estava do lado de fora da UPA afirmou que, quando o carro chegasse, a equipe faria o acolhimento.
“Quando o carro chegou, saíram três enfermeiras andando com a maca até chegar na porta do carro. Uma enfermeira só foi até o carro tentar tirar o meu pai e falou ‘eu não consigo tirar ele sozinha’. Nenhuma outra tentou ajudar, um guarda não tentou ajudar. Aí, o meu marido entrou pela porta do motorista e levantou as pernas do meu pai para que ela conseguisse retirá-lo, né? Puxá-lo de dentro do carro. E aí, nós ajudamos a colocar o meu pai em cima da maca para só então essa enfermeira que foi tentar retirá-lo começar a fazer massagem cardíaca”, diz Adriana.
Cerca de 50 minutos após a entrada de Ercílio na UPA, a família foi avisada de que a equipe de saúde fez sete ciclos de tentativas de reanimação, sem sucesso. A equipe informou que ele já tinha entrado em parada cardiorrespiratória antes do atendimento.
“Mas ele entrou em parada porque nós fomos impedidos de entrar pela porta que nós tínhamos conhecimento”, reclama Adriana. “Uma emergência é uma emergência, né? Não tem um protocolo que não possa ser quebrado para salvar uma vida”, afirma.
A EPTV, afiliada Rede Globo, esteve na UPA Carlos Lourenço na tarde desta quinta-feira (27) e constatou que não há sinalização indicando que a população pode acessar a rampa que leva à entrada para casos de emergência. No local, existem placas informando que ali é entrada apenas de ambulâncias.
Entrada que leva à emergência da UPA Carlos Lourenço não tem sinalização que indique acesso para pacientes.
Reprodução EPTV
Caso será investigado
Para Fernanda Padilha, advogada da Comissão de Direito Médico da OAB Campinas, a partir das informações disponíveis até o momento, é possível entender que houve falha na informação da UPA em relação às entradas e no acolhimento do paciente.
“Então, faltou ali talvez um treinamento da equipe pra saber acolher o paciente e falar assim, ‘não, peraí, nesse caso o protocolo não vai ser considerado’. Por quê? Porque a vida é mais importante”, afirma a advogada.
A família registrou Boletim de Ocorrência eletrônico, que foi encaminhado à 10ª Delegacia Policial de Campinas. A Polícia Civil confirmou que investiga a morte e “atua para esclarecer as circunstâncias dos fato”.
A prefeitura informou que o caso está sendo analisado pela Supervisão da UPA Carlos Lourenço e pela diretoria de Urgência e Emergência da Rede Mário Gatti. Disse também que o caso está sendo apurado para que sejam dados os “devidos encaminhamentos”.
Em relação à reclamação da família sobre o atendimento, a prefeitura afirma que o protocolo exige que seja feito pela entrada de emergência, que tem estrutura para fazer o acolhimento.
A cópia do prontuário está sendo providenciada e será disponibilizada em até 15 dias. A UPA não possui câmeras.
Sobre a sinalização, a prefeitura disse que está em fase de pesquisa de preço e vai abrir licitação para atualizar a sinalização de todas as unidades da Rede Mário Gatti.
Processos contra saúde crescem na metrópole
Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram aumento de 44,7% na quantidade de processos abertos para indenizaçao por dano moral e material contra as redes pública e privada de saúde, nas regiões de Campinas (SP) e Piracicaba (SP).
2023: 266 processos novos
2024: 385 processos novos
Alta de 44,7%
Em 2025, foram abertos 61 novos processos até fevereiro.
O levantamento foi obtido pela EPTV e os dados se referem a processos nas dez maiores cidades da área de cobertura da emissora. Confira abaixo.
Campinas
Piracicaba
Limeira
Sumaré
Indaiatuba
Americana
Hortolândia
Santa Bárbara d’Oeste
Mogi Guaçu
Valinhos
Para Fernanda Padilha, a alta se deve ao maior acesso à informação por parte de pacientes.
“Os pacientes e os consumidores, em geral, eles estão tendo maior acesso à informação, então quando eles têm as informações divulgadas na rede social, por meio da internet, jornais, eles tomam consciência de que aquilo é um direito deles. E com essa conscientização eles buscam mais a tutela juridicional, a justiça, para resguardar os direitos que foram violados”, explica a advogada.
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