Tarifaço semelhante ao de Trump foi tentado nos EUA em 1930 e agravou a Grande Depressão; entenda


Lei Smoot-Hawley foi uma tentativa de proteger a agricultura e a indústria dos EUA da competição internacional após o ‘crash’ da Bolsa em 1929. Além de não ter produzido o efeito desejado, ela se tornou o símbolo da política ‘cada um por si’ nas relações exteriores, com a criação de tarifas recíprocas e a emergência de movimentos ultranacionalistas. Tarifaço de Trump preocupa diferentes setores da economia dos EUA
“O que é certo é que essa lei não fez nada para promover a cooperação entre as nações, seja no âmbito econômico ou político, durante uma era perigosa nas relações internacionais”. A frase poderia muito bem ser uma avaliação sobre o tarifaço do presidente dos EUA, Donald Trump, anunciado nesta semana.
Mas não: ela é uma análise do Departamento de Estado dos EUA sobre a Lei Smoot-Hawley, aprovada em 1930 pelo Congresso americano, em uma tentativa de proteger a agricultura e indústrias do país da crise econômica — e que, segundo muitos economistas, produziu o efeito contrário, agravando a Grande Depressão.
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Trump anunciou, na quarta-feira, que os EUA cobrarão 10% de todas as importações feitas do Brasil — outros países enfrentarão uma tributação ainda maior. O presidente americano disse que o conjunto de tarifas vai “libertar” o país de produtos estrangeiros, fortalecendo sua indústria.
A intenção é semelhante à da Lei Smoot-Hawley, implantada pouco após o crash da Bolsa de Valores de 1929. Ao longo dos anos 1920, agricultores americanos enfrentavam crises de excesso de oferta e exigiam maiores taxas de importação de produtos estrangeiros. O candidato republicano Herbert Hoover encampou a causa em sua campanha presidencial, e ele se tornou presidente em 1928.
“Mas uma vez que o processo de revisão das tarifas começou, provou-se impossível pará-lo”, diz o site do Departamento de Estado, alimentado pela última vez em 2016, ainda no governo do democrata Barack Obama. “Pedidos por maior proteção inundaram grupos de interesse especial do setor industrial e logo um projeto de lei destinado a fornecer alívio para fazendeiros se tornou um meio de aumentar tarifas em todos os setores da economia.”
Herbert Hoover, presidente dos EUA entre 1929 e 1933
Library of Congress
A lei aumentou 20%, em média, as tarifas sobre 20 mil produtos importados, sob as críticas de diversos economistas e até de alguns grandes empresários, como Henry Ford.
De acordo com muitos economistas, o tiro saiu pela culatra. Com preços mais altos, o consumo interno não viu aumento expressivo, e a Grande Depressão se estendeu ao longo de boa parte dos anos 1930.
Mais do que isso, a Lei Smoot-Hawley se tornou o símbolo da política externa “cada um por si” que marcou os anos seguintes. Outros países responderam na mesma moeda, retaliando com tarifas próprias para produtos estrangeiros, e o comércio internacional caiu vertiginosamente.
A política também afetou as relações exteriores em um momento delicado, no qual movimentos totalitaristas marcados pelo ultranacionalismo se espalhavam pela Europa.
Agora em 2025, há temores de que o tarifaço de Trump aprofunde novamente as tensões entre os países. Nesta sexta-feira (4), por exemplo, a China anunciou uma retaliação a Washington com tarifas de 34% sobre produtos dos EUA.
Comparação com a Grande Depressão
Mais cedo nesta semana, Trump defendeu sua política tarifária, afirmando que a própria crise de 1929 foi um resultado do fim abrupto das taxas a produtos estrangeiros nos anos 1920. A fala do presidente foi fortemente criticada pelo artigo de capa da revista “The Economist” desta semana.
“Quase tudo o que o Sr. Trump disse nesta semana — sobre história, economia e tecnicalidades do comércio — foi completamente ilusório. Sua leitura da história está de cabeça para baixo. Ele há muito glorifica a era de tarifas altas e impostos de renda baixos do final do século 19. Na verdade, os melhores estudos mostram que as tarifas impediam a economia naquela época”, diz a revista.
“Ele agora acrescentou a afirmação bizarra de que o levantamento de tarifas causou a Depressão da década de 1930 e que as tarifas Smoot-Hawley chegaram tarde demais para contornar a situação. A realidade é que as tarifas tornaram a Depressão muito pior, assim como prejudicarão todas as economias hoje. Foram as meticulosas rodadas de negociações comerciais nos 80 anos subsequentes que reduziram as tarifas e ajudaram a aumentar a prosperidade.”
Protecionismo
Até hoje, a Lei Smoot-Hawley é usada por liberais como exemplo dos riscos de se adotar uma política protecionista.
Ao aumentar as tarifas de produtos importados, Trump visa fazer com que os produtos americanos sejam mais competitivos para os consumidores dos EUA, impulsionando a indústria e a agricultura locais, bem como incentivando corporações a transferir sua cadeia produtiva para o país.
Especialistas argumentam, porém, que levará anos para que as tarifas produzam os efeitos desejados, como reacender a indústria dos EUA, alterar as cadeias de suprimentos e trazer a produção para casa.
Enquanto isso não acontece, os consumidores americanos provavelmente verão preços mais altos, a economia pode entrar em crise e os aliados colocarão seus próprios impostos sobre produtos americanos — efeitos que Trump chamou de “perturbação”, mas que os eleitores podem não estar dispostos a aceitar nas eleições de meio de mandato do ano que vem.
Nesta sexta, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, disse que as tarifas alfandegárias de Trump aumentarão o risco de maior desemprego e provavelmente vão causar uma inflação maior e uma desaceleração do crescimento.
‘Curtindo a Vida Adoidado’
Cena de ‘Curtindo a Vida Adoidado’ cita Lei Smoot-Hawley, comparada ao tarifaço de Trump
Nas redes sociais, usuários associaram o tarifaço de Trump ao filme “Curtindo a Vida Adoidado” (1986). Em uma cena do clássico da Sessão da Tarde dirigido por John Hughes, um professor entediante dá uma aula justamente sobre a Lei Smoot-Hawley para uma plateia de alunos apáticos.
“Em 1930, a Câmara dos Representantes, controlada pelos republicanos, em um esforço para aliviar os efeitos da… alguém?, o projeto de tarifa, o Ato Tarifário de Hawley-Smoot, que… alguém? Aumentou ou reduziu? Aumentou as tarifas, na tentativa de arrecadar mais receita para o governo federal”, explica o professor, em tom monocórdio.
“Funcionou? Alguém? Sabem os efeitos? Não funcionou ,e os Estados Unidos afundaram ainda mais na Grande Depressão”, ele conclui.
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