
Se Santa Catarina de Alexandria, a padroeira do Estado, é considerada pelos historiadores como “a mais virtuosa das mulheres”, a beata Joana de Gusmão conquistou, há mais de 265 anos, o título de “visionária peregrina e educadora”, quando lançou as bases das mais antigas instituições católicas, assistenciais e educativas de Santa Catarina.

Pintura da paulista Joana de Gusmão, a visionária peregrina e educadora, que fincou raízes no Estado – Foto: Divulgação/ND
Natural da Capitania de São Vicente, atual Santos, tornou-se peregrina em 1745, com a morte do marido Antônio Ferreira de Gamboa, veio para o antigo Desterro trazendo uma pequena imagem do Menino Deus. Conseguiu um pequeno terreno no Morro da Boa Vista, ali edificando uma capelinha, onde também atuou com histórico pioneirismo como exemplar educadora, alfabetizando as meninas e ensinando as mulheres pobres da vila.
Com a fundação da Irmandade Senhor dos Passos, em 1º de janeiro de 1765, a capela ganhou proteção, sendo ampliada com a construção de um altar lateral para abrigar a imagem do protetor vinda da Bahia.
No ano de 1788, desponta outra figura humanitária de repercussão nacional e até mundial: o irmão Joaquim Francisco do Livramento, nascido em Desterro, integrante e colaborador voluntário da Irmandade, que edificou a Caridade dos Pobres, instituição destinada a amparar os pobres com assistência médica e hospitalar.
Em várias cidades do Brasil, foi pioneiro também na construção de Santas Casas, tudo fruto de seu esforço pessoal de doações e eventos promocionais para angariar recursos. Assim, a beata Joana de Gusmão e o irmão Joaquim do Livramento têm suas biografias interligadas por duas instituições que convivem e prestam relevantes serviços à população há mais de 260 anos.
A Procisão do Senhor dos Passos
Neste fim de semana, Florianópolis revive a tradicional Procissão do Senhor dos Passos, promovida todos os anos pela Irmandade e criada a partir da Capela Menino Deus por Joana de Gusmão, e fortalecida pelo Imperial Hospital de Caridade, obra do irmão Joaquim.
A origem desta bicentenária celebração religiosa, popular e cultural catarinense está em Iguape, cidade do Litoral Sul de São Paulo, mais precisamente no Santuário de Nossa Senhora das Neves, onde Joana de Gusmão e o marido Antônio Ferreira de Gamboa, em peregrinação, firmaram um pacto. Prometeram que “aquele que sobrevivesse não passaria as segundas núpcias e iria peregrinar pelo mundo.”

Procissão do Senhor dos Passos é promovida todos os anos na Capital pela Irmandade. – Foto: Flavio Tin/Arquivo/ND
Esta circunstância histórica explica, também, outra tradição religiosa da Ilha, com descendentes de açorianos viajando em agosto para a Festa de Iguape.
Peregrinação e pregação da fé de Joana de Gusmão
Tendo Gamboa, o marido, morte causada por problema na bexiga, em Paranaguá (PR), Joana distribuiu aos pobres as riquezas herdadas da família. Vestiu um “um hábito de burel” e se pôs a caminhar, por terra e a pé, para o Sul do Brasil, pregando sua fé.
Chegando no antigo Desterro, Joana escolheu um pedaço de terra, mata virgem, no morro da Boa Vista, e ali construiu um ranchinho. Passou a peregrinar, a pé e descalça, com outras duas beatas, atingindo até a Colônia do Sacramento, pedindo esmolas. Repetiu o trajeto até Rio Grande (RS) várias vezes, pedindo ajuda financeira para edificar a Capelinha do Menino Deus, onde colocaria a pequena imagem que carregava consigo numa pequena caixa.
Beata da Lagoa
Retornando a Paranaguá (PR), ingressou, em 1745, na Ordem Terceira de São Francisco. Como já estava vestida de “burel” (tecido artesanal português feito de lã de ovelha), ganhou o título de “beata”.
De volta à Ilha de Santa Catarina, foi morar na Lagoa da Conceição, onde construiu também uma pequena capelinha, no alto do Morro do Assopro, depois transformada em igreja, visitada por Dom Pedro II. A partir de 1756, agregou-se à Ordem Terceira, já com o nome de “Beata da Lagoa”.
A construção da Capela Menino Deus
Para construir a Capela Menino Deus, obteve autorização do bispo do Rio de Janeiro, Dom Antônio do Desterro. O terreno onde a capela foi erguida foi doado em 16 de março de 1762 por André Vieira da Rosa.
Coincidência ou milagre, imagem impedida de sair da Ilha
Coincidência para historiadores, milagre para os devotos, no ano da inauguração da capela, em 1764, a imagem do Senhor dos Passos, do artista baiano Francisco das Chagas, destinada ao Rio Grande (RS), foi mantida na Ilha, depois de três tentativas frustradas de zarpar para o Sul, devido a terríveis tempestades.
No ano seguinte, a fundação da Irmandade do Senhor dos Passos, em 1º de janeiro, sendo seu primeiro provedor o brigadeiro Francisco Antônio Cardoso de Meneses e Souza, governador da Capitania. Em 1769, estava concluído o altar lateral para a solene introdução da imagem de Cristo subindo o Calvário.
Sobre o fato histórico, escreveu o professor Henrique da Silva Fontes, em palestra no Congresso Brasileiro de História, em São Paulo, 1954: “A imagem do Senhor dos Passos, com a sua impressionante angústia e dolorosa beleza, atraiu novos devotos à Capela Menino Deus, que passou a ser o mais procurado Santuário da Capital de Santa Catarina, primazia que ainda conserva”.
Quando da invasão espanhola na Ilha, outro fato excepcional, a Capela Menino Deus foi transformada em fortaleza para proteção de famílias que temiam perseguições e punições. A beata Joana de Gusmão e os desterrenses eram sempre respeitados pelos invasores, que ali realizavam várias visitas.
A morte da Joana de Gusmão
As publicações que citam a histórica obra assistencial e educativa informam que a beata Joana de Gusmão morreu aos 92 anos, em 16 de novembro de 1780. Pediu para ser sepultada no interior da capela que ergueu, uma tradição católica em todo o mundo durante séculos. Seus restos mortais encontram-se numa urna, na parede à esquerda da capela, próxima da imagem do Senhor dos Passos.
Joana de Gusmão, a beata que conquistou milhares de corações de crianças, jovens adultos, em Desterro, no Sul do Brasil e até no Uruguai, está a merecer um monumento condigno na capital catarinense.
A imagem do Menino Deus
Os biógrafos de Joana de Gusmão costumam destacar os terríveis sacrifícios que sofreu em suas peregrinações a pé e descalça por milhares de quilômetros, sujeita aos ferimentos e aos ataques de animais peçonhentos. Levava consigo, junto ao peito, a imagem de madeira do Menino Deus, com apenas 28 centímetros, com uma coroa metálica na cabeça. De acordo com Henrique Fontes, retrata o “Menino Deus com a mão direita em gesto de bênção, e com a esquerda segurando a cruz”.
Desde então, encontra-se no alto do Altar Central da Capela Menino Deus do Imperial Hospital de Caridade. Com esta inspiração, idealizou a primeira escola feminina em Desterro, abrigando meninas e mulheres, ensinando não apenas a leitura e a escrita, como transmitindo conhecimentos recebidos por sua qualificada formação familiar.

A Capela Menino Deus – Foto: Marco Santiago/Arquivo/ND
Um de seus irmãos, Alexandre de Gusmão, também nascido em Santos, fez carreira diplomática e teve papel destacado nas negociações que culminaram com a assinatura do Tratado de Madrid, entre Portugal e Espanha, em 1750. É considerado um dos patronos da diplomacia brasileira.
O outro, Bartolomeu de Gusmão, sacerdote secular, cientista e inventor, igualmente nascido em Santos, detém o título de pioneiro na aviação moderna. Criador do primeiro aeróstato.
Homenagens que imortalizam seu legado
O principal tributo prestado à Joana de Gusmão, símbolo maior do voluntariado e pioneira na assistência e educação das mulheres foi decidido em abril de 1977, com a denominação do Hospital Infantil Joana de Gusmão, a maior unidade pública de atendimento pediátrico de Santa Catarina.
Sua inauguração deu-se em 13 de março de 1979, na gestão do médico Murillo Ronald Capella, já projetado nacionalmente como cirurgião pediatra pelas atividades no Hospital Infantil Edith Gama Ramos. A pediatria catarinense ganhava destaque com a equipe liderada por Capella e integrada pelos renomados médicos Nelson Grisard, Gabriel Faraco, Anisio Ludwig, Álvaro José de Oliveira, Newton do Valle Pereira e Lincoln Virmond de Abreu, entre outros.

Hospital Infantil Joana de Gusmão, na Capital, cujo nome homenageia a beata – Foto: Divulgação/ND
Substituiu o Hospital Infantil Edith Gama Ramos, o primeiro do Estado, inaugurado em 1964 para homenagear a esposa do governador Celso Ramos. Em 28 de setembro de 2023, pelo Projeto de Resolução nº 026563, de autoria da vereadora Carla Ayres, a Câmara Municipal de Florianópolis instituiu a Medalha Beata Joana de Gusmão para destacar trabalhos inéditos de voluntariado.
Os historiadores
Entre os principais pesquisadores sobre a história de Joana de Gusmão destaca-se o professor Henrique da Silva Fontes, autor da mais completa obra sobre a Irmandade do Senhor dos Passos e Imperial Hospital de Caridade.

Cópia dos escritos do professor Henrique da Silva Fontes sobre a peregrina – Foto: Divulgação/ND
Baseou seus relatos em depoimentos e escritos de José Gomes dos Santos Silva, Manoel Joaquim de Almeida Coelho, Lucas Alexandra Boiteux e Oswaldo Rodrigues Cabral, entre outros. Fontes deu projeção nacional à história da beata em comunicação no Congresso Brasileiro de História, comemorativo do 4º centenário de fundação de São Paulo, em 1954.